Crucifixo de São Damião

 

                                                                                  

 

                   

Vamos ver de perto o crucifixo de São Damião, aquele que falou com São Francisco de Assis no começo de sua vida de conversão, e com Santa Clara durante seus quarenta e dois anos de mosteiro.

Nosso crucifixo é um hino à santidade de Deus, expressa na luz e na beleza.

Um artista italiano desconhecido o pintou no século XII num pano colado sobre uma madeira de nogueira. Ele possui 2,10m de altura, 1,30m de largura e 12cm de espessura. Provavelmente o Crucifixo permaneceu na Igreja de São Damião até que as irmãs Pobres, em 1257, o levaram consigo à nova Basílica de Santa Clara.

Guardaram-no no interior do coro monástico por diversos séculos. No Ano de 1938, a artista Rosária Alliano restaurou o Crucifixo com grande perícia, protegendo-o inclusive contra qualquer deterioração.

 

Desde 1958, o Crucifixo original de São Damião está guardado com grande zelo pelas irmãs Clarissas. Ele está sobre o altar, ao lado da capela do Santíssimo, na Basílica de Santa Clara, protegido por vidro, e é visitado por estudiosos, devotos e turistas do mundo todo. É um monumento histórico franciscano e universal.

TEOLOGIA DA LUZ 

 

O grande destaque do Crucifixo de São Damião são os seus enormes olhos. São grandes, brancos, têm linhas pretas e vermelhas acima e abaixo para se destacarem mais.

São olhos de amor, de paz, que se dirigem para todos, mesmo os que estão longe, oferecendo a luz de Deus.

 

       
O jovem Francisco deve ter ficado extasiado com tanta luz deste Cristo. É Jesus na Cruz, é Jesus na ressurreição e é Jesus na Ascensão. Sempre luminoso.

Porque ele é “a luz que brilhou nas trevas” (Jo 1,9-10)

A luz do Crucificado fez Francisco olhar para si mesmo e perceber que, lá dentro, tudo era escuridão. Sem que se desse conta, a luz de Deus já fizera com que aprendesse a olhar para dentro.

 

Então, Francisco orou:

“Sumo e soberano Deus, iluminai as trevas do meu coração. Dai-me uma fé reta, esperança certa, caridade perfeita, bom senso e conhecimento, Senhor, para que eu cumpra o vosso santo e verdadeiro mandamento.

 
São Francisco orando diante do Crucifixo de São Damião, na concepção artística de Gioto, na basílica do Santo em Assis.

 

                        
No Crucifixo de Francisco e Clara há o mínimo de Sangue: é o que brota das chagas e nos liberta da obsessão de querermos ser deuses.

 

É um sangue que se derrama sobre todos, até sobre os Anjos, porque todos precisamos dele, nós que temos uma vida alimentada por seu Corpo e Sangue.
                  

 

 

Chamamos a atenção para o fato de que, no ícone de São Damião, o sangue brota sempre como uma flor, que traz vida para o mundo. É um sangue que já não martiriza o Crucificado; enaltece o Ressuscitado.

As chagas dos pés de Jesus derramam o sangue de vida sobre outras pessoas representadas na parte de baixo da cruz. A única ainda identificável é São Pedro, sobre quem Jesus edificou o seu povo novo.

 

 

A parte mais alta do crucifixo de São Damião foi reservada para localizar o céu. Vemos Jesus glorioso que sai do mundo dos humanos na Ascensão e chega ao mundo da Trindade, representado pelo semi-círculo onde está Deus, simbolizado na mão e no dedo estendido como o Pai e o Espírito Santo.
No Crucifixo de São Damião são apresentados dez santos no céu: cinco de cada lado de Jesus. Dez é um número simbólico representando a totalidade.
Os dez santos representam todas as pessoas que estão no céu. O fato de serem todos parecidos também pode indicar que, na vida eterna, seremos todos irmãos porque Deus será tudo em todos.
 

 

 

Nesta parte do crucifixo estão representados os Santos da terra, que segundo o evangelho de São João estavam ao pé da Cruz: Nossa Senhora e São João à esquerda, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e o centurião à direita.

 

À esquerda, em tamanho bem menor, está o soldado São Longino, que teria dado a lançada em Jesus.
A direita há outra figura pequena, em que alguns vêem um sumo sacerdote, em atitude petulante, provocando Jesus para descer da cruz.

 

Nossa Senhora tem o manto branco da luz, um vestido de vermelho escuro, símbolo do amor intenso. A túnica violeta recorda que ela é a Arca da Aliança, que traz o Salvador. De fato, o forro da Arca da Aliança era violeta. Maria indica Jesus como fez
nas bodas de Caná.
São João tem lugar de destaque junto a Nossa Senhora, para quem está voltado, como se a ouvisse. Tem um manto rosado do amor e uma veste branca da pureza. Faz o mesmo gesto de indicar Jesus porque foi um dos maiores anunciadores de Jesus, e o nosso Crucifixo está todo fundamentado
na sua teologia.
Maria e João estão se aceitando como mãe e filho.
Observe-se que Maria está na extrema direita de Jesus, o lugar de honra. João e Madalena, que estão mais perto de Jesus, estão voltados para o outro lado, porque João fala com Nossa Senhora, e a Madalena fala com Maria mãe de Tiago.

  

 

Maria Madalena tem a cabeça quase encostada com a da outra Maria, porque lhe confia um segredo ou porque comentam a ressurreição, de que foram as primeiras testemunhas.
Maria, mãe de Tiago representa todo o grupo de mulheres que sempre seguiram Jesus e cuidavam dele. Muitas delas estavam ao pé da cruz.
O centurião não tem auréola. Por alguns é interpretado como o centurião que comandou a crucifixão de Jesus e mostra três dedos porque reconheceu a Deus depois da crucifixão. Para outros é o centurião bondoso cujo filho Jesus curou.

  

 

Detalhes: um galinho e uma fogueirinha poderiam estar indicando que a figura abaixo é São Pedro, que negou Jesus junto à fogueira e ouviu o galo cantar. Foi testemunha da ressurreição.
As conchinhas, que cercam todo o ícone, eram símbolos da vida eterna, porque costumam ser bonitas e duráveis. Parece que foram acrescentadas à tábua original.

 

Nos dois extremos horizontais da cruz de São Damião, estão duas figuras semelhantes, que se dirigem a Jesus. Há discordância na sua interpretação. Alguns vêem dois anjos, que estariam no túmulo quando Maria Madalena e a outra Maria foram preparar o corpo de Jesus com mirra e foram as primeiras testemunhas da ressurreição.
Outros, como nós, vêem as santas mulheres. Os ícones da ressurreição costumavam representar as “myrrophores”, isto é, as que levavam mirra.

 

 

O Cristo de São Damião não está morto, É o Cristo que, morrendo, venceu a morte. Por isso, não tem coroa de espinhos, derrama o sangue, mas não está todo ensangüentado, tem os pés bem plantados, os cabelos bem arrumados e os braços em posição de oração.

  

 

Na iconografia síria, de onde é originado este crucifixo, a ressurreição era simbolizada por um caixão aberto. Por isso, ele também repousa sobre um fundo negro, mas, todo luz, é vencedor da morte.

 

Um sinal da vitória e da ressurreição neste ícone é o pano que reveste Jesus: Sua construção é bem elaborada, com um nó caprichado e debruns de ouro. De fato, os crucifixo mais antigos costumavam representar Jesus com paramentos sacerdotais e até mesmo com vestes régias, usando uma coroa de ouro na cabeça.
 

 

 

Jesus está dentro de um círculo vermelho. É nosso mundo. Jesus está saindo dele: seus pés, um acima do outro demonstram que está subindo. Como está com a cabeça e a mão direita fora do círculo, está saindo do nosso mundo. Chegando junto aos santos e ao meio-círculo da Trindade, está entrando no mundo do mistério, que ainda temos que descobrir para ir tendo vida plena.

 

 

No alto da Cruz, três círculos se sucedem, diminuindo de baixo para cima. O Crucificado-Ressuscitado é o maior e mais próximo. O da ascensão já menor, porque está mais longe. O do Pai e do Espírito Santo, além de ser o mais afastado e, por isso, menor, contém só a metade de baixo.
Nós não vemos o Pai e o Espírito Santo, porque eles são comunicados na Palavra, que é Cristo, o Filho. Sobre o Pai e o Filho, só sabemos o que o Cristo revelou, e há muito mais – toda uma outra metade, para nós ainda virmos a conhecer.
 

 

Sob a mão direita de Jesus, dois anjos parecem conversar, fazendo gestos de admiração. Devem estar comentando o amor imenso de Jesus pela humanidade, pois deu sua própria vida por ela.
Mas também podem estar comentando que a crucifixão e ressurreição de Jesus tiveram resultado muito maiores, pois o sangue da mão direita, brotando da chaga como uma flor, também cai sobre eles.
Sob a mão esquerda de Jesus, outros dois anjos equilibram os seus companheiros do lado esquerdo.
Dá para observar que esse braço da cruz está fora do alinhamento. Talvez queira mostrar que em nossas vidas sempre há um lado “esquerdo”, falho.

  

 

O encontro com o crucifixo de São Damião foi a maior transformação na vocação inicial de São Francisco. Ele passou a ver a presença do Crucificado em toda parte.

Por isso rezava sempre quando
encontrava uma cruz:

“Nós vos adoramos, santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui em todas as vossas igrejas que estão em todo o mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa santa cruz, remistes o mundo”. (1Cel 45)

 
O Crucifixo que São Francisco e Santa Clara encontraram na igreja de São Damião iluminou as suas vidas.

Traz até hoje a luz de Deus para tantas pessoas!

Essa pequena apresentação quer mostrá-lo e ajudar a descobrir alguns de seus interessantes segredos.

 

 

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